Em Santa Maria, o frio é maior que a quantidade de doações de agasalhos

Pâmela Rubin Matge

Em Santa Maria, o frio é maior que a quantidade de doações de agasalhos
Foto: Nathália Schneider

As pernas encolhidas e os pés que vestem apenas meias e chinelos denunciam uma carência que castiga ainda mais nos dias gelados. 

– Não há tênis que chegue – conta a dona de casa Patricia Teixeira Oliveira, 24 anos, mãe de duas meninas e madrasta de outros quatro. 

As roupas que vestem  as oitos pessoas, sendo dois adultos, um adolescente e cinco crianças que vivem em uma casa no Bairro Passo D’Areia, região norte de Santa Maria, “ainda dão conta”. O problema é a falta de calçados. A residência fica no vilarejo popularizado como Babilônia, sem ruas calçadas e rede de saneamento. Quando a chuva é forte, é preciso pular poças e atravessar trechos em que água bate no tornozelo. Cada filho, tem cerca de um par de calçados para ir à aula. Em dias chuvosos, os sapatos molham e não dá tempo de secar. 

– Uma das meninas acabou de rasgar o último tênis que tinha. Roupa, graças a Deus, ainda tem. Um irmão mais velho passa para o mais novo de um ano para o outro, mas os calçados desgastam muito. O dinheiro que a gente ganha do Bolsa Família vai praticamente para a comida – explica a dona de casa.

Patricia é responsável pela organização da casa e pelo cuidado com os filhos. Os oito integrantes da família vivem com cerca de R$ 500, que ela recebe do programa Auxílio Brasil (antigo Bolsa Família) e da renda de um salário mínimo do pai das crianças. A residência onde vivem não é própria. Em média, são repassados para o aluguel cerca de R$ 400 por mês ou “a quantia que dá” ao dono do imóvel.

Roupas para crianças

A situação de Patricia se assemelha a outras centenas de famílias em Santa Maria: a falta de mantimentos para se proteger do frio neste inverno, principalmente para as crianças. Se lá, a carência maior é por calçados, em outros bairros da cidade, é a ausência de roupas e cobertores que  preocupa e pode por em risco a saúde das pessoas.

Isso porque, segundo meteorologistas, o inverno na Região Central em 2022, terá oscilações de temperatura e frio intenso, principalmente no fim de julho e no mês de agosto. A previsão é que cheguem dias em que as temperaturas caiam até – 2°C. 

Nas últimas semanas, as 22 mil peças arrecadadas na campanha do Agasalho e as 1.050 pessoas assistidas até a última quinta-feira, não dão conta da demanda. O frio é maior que as doações. 

– Estamos concentrando ações. Estamos trabalhando muito e nossa campanha já supera o ano passado, mas  ainda é preciso mais adesão. Pedimos sempre que as pessoas doem roupas pesadas E quentes, principalmente de criança, além de cobertores.  É preciso solidariedade – apela o secretário de Desenvolvimento Social, João Chaves. 

Locais para deixar as doações não faltam. São 39 pontos na cidade. O inverno começou no dia 21 de junho, e a campanha segue até 31 de julho. Contudo, a travessia de dias frios que milhares de pessoas terão de enfrentar ainda está longe do fim.

Leia o restante desta reportagem:

“A gente sente até uma humilhação uma vergonha em ter que contar como vive”, relata catador entre lágrimas ao comentar falta de roupas e alimentosCom doações intensificadas, ideia é levar agasalhos até as famílias; veja como doar

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